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Conceitos Distorcidos
 


Decida você mesmo!

Se à alguns anos alguém virasse pra mim e falasse que eu teria que seguir alguma coisa durante minha vida inteira, eu no mínimo iria exigir uma outra vida pra poder dar a resposta, essa é a grande verdade, eu não sou capaz de decidir assim tão rápido, não sou uma maquina, eu vivi diversas coisas, agora querem que eu as esqueça assim, tão rápido. Deixar pra trás todas essas coisas que volta e meia me socam na barriga, não sei se conseguirei.

Lembro-me quando meus dias se resumiam a longas voltas de bicicleta ao ar livre, e no final do dia, lavá-la. As aulas eu não me lembro bem, garanto que era algo bem irracional, regrado de amizade, sinceridade, sacanagem, esperança. De tardezinha eu descia pra portaria e ficava esperando meus pais, eu juro que podia escutar a distantes metros o barulho do carro do meu pai. Minha maior preocupação era se meus pais iriam dormir em casa, eles tinham que chegar, passou das seis da tarde, eu só pensava neles. Hoje esta tudo diferente, me exigem, eu me cobro a todo instante, quero o melhor de todos e de mim, eu não sei de onde veio isso.

A roupagem não importava. Eu me lembro que adorava aquela camiseta da Mônica, roxa. Ou então virava o dia com o uniforme mesmo, as peladas na grama com a camisa do uniforme eram demais, uma mais especial que a outra. Hoje uma vaidade assola a todos, eu não sei por que, as pessoas se acham um produto que a qualquer momento pode ser cogitado o preço, por isso deve estar sempre “em forma”. Eu só queria poder virar o dia com meu uniforme, ou com aquela velha camiseta da Mônica, é pedir de mais? Diga-me.

Outro dia me disseram que eu deveria seguir uma profissão. Isso mesmo. Eu teria que decidir para que iria prestar o vestibular, e pensar muito bem, afinal minha vida toda iria se resumir a aquela decisão. Foi frustrante quando me falaram que deveria esquecer meus gostos e decidir pelo que tivesse mais acessibilidade no mercado. Muitos colegas escolheram o que era mais fácil, a família já atuava na área, por osmose eles queriam também. Esse momento de decisão é aqueles que você precisa, ao menos eu, de uma vida pra decidir. Se é uma vida que vai ser resumir ali, então nada mais justo que me dessem de presente outra para que minha escolha seja a mais sábia possível. E eles não me deram, ninguém se preocupou. Nem minha bicicleta para andar eu tinha mais, o tempo havia passado, realmente eu teria que decidir. O menino grande não poderia ficar andando de bicicleta todo dia e admirando sorriso alheio até a morte, não dava né?

Eu decidi, tomei como base alguns dos meus gostos, mesclei com outras coisas, e aqui estamos. Na verdade, não me deram uma vida de presente para que pudesse escolher sabiamente, então eu não iria dar de mão beijada toda minha vida, tudo aquilo que acredito deve ser lembrado, cada volta de bicicleta, cada tombo, deve ser aqui posto, e a decisão deve ser tirada por base neles. Eu opinei pelos meus desejos. Talvez por impulso, impulso? Eu nunca gostei dessa palavra.

Ser um sujeito, trabalhador, explorador, capacitado, explorado, esses critérios motivam milhares a decidirem seus futuros. Talvez seja muito fácil, apagar da memória tudo. A miséria, fome, desigualdade, guerras, e todas essas mazelas que nos assola. Eu não consigo me anular. Eu faço parte disso tudo, como você se anula em uma hora dessas? Esse momento da escolha, você deveria colocar na balança tudo. Mas não, é mais fácil fingir, deixar pro próximo, pros heróis. Eu e você, será que nascemos para servir? Para migrar de deserto em deserto, na solidão completa. Nascemos nós para acumular uma moralidade e transmitir tudo isso?

Nestas horas, que as palavras tomam conta de mim, onde eu me libero para criar, minha vida não é uma Obrigação. É incrível, como tudo vem se resumindo a obrigações. Nossas vidas vem se resumindo em horários, lugares, compromissos, afinal o que vem acontecendo? Cadê aquele tempo em que nós podíamos almoçar todos juntos? Eu quero de volta. Quero de volta aquelas tardes que tirávamos pra fazer planos pra noite seguinte, e para o próximo feriado. Dê-me, agora... Aquele abraço apertado, ninguém se dá ao prazer. Beijos e Abraços na versão descartáveis, não negue, você já se cansou deles. Você se considera um ser descartável? Daquele tipo hipócrita, que finge prestar atenção nos outros, só pra manter uma pose. Você se sente um produto? Daquele tipo que sempre passa uma imagem, um logotipo, sempre a venda, sabe né?

Eu sinto muita saudade, de quando tudo era fresco, sem padrão. Só havia um caminho, não ter caminho. O caminho era fácil, pelo fato de não ter onde ir. Hoje só querem me dar caminhos e apontar a direção. Aonde ir? Como ir? Não. Hoje não. Me deixe aqui, sozinho, pensando, sem coerção alguma. Não me venha com hostilidade, hoje eu sou paz, voando por ai, em busca de um caminho qualquer, dispensando a previsão, sem razão.

O titulo é proposital, dê o titulo que bem entender. Opine você mesmo. Faça a diferença. Não se preocupe, ninguém vai fazer julgamentos, pelos menos aqui não.

Nesses dias, que não encontramos respostas pra nada. Aquele dia que parece que você se perdeu no tempo, dorme bastante, quando acorda você se situa lá na sua infância. E agora, todos te cobram, faça isso, faça aquilo, dessa forma, se não meu filho, some daqui, se mata. A luta para que minha vida não se torne uma obrigação me motiva. Observar alguns sorrisos sinceros, ainda, me anima.

 



Escrito por Cidadão Padrão às 13h21
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