Vontade e Percepção.
Que vontade de escrever. É só isso mesmo, vontade sobre vontade. Sei bem que deveria haver um motivo de modo que este pudesse conduzir esta escrita, e talvez até tenha, mas antes de tudo vontade. Também compreendo que no começo do texto devemos fazer uma breve introdução de modo que quem irá ler possa começar a visualizar aos poucos. Porém sem uma temática definida não posso lançar uma introdução certeira. Então, se você por algum motivo for se arriscar a ler, por você, talvez, posso adiantar que os parágrafos seguintes irão falar de “formas”, isso mesmo, desse modo eu defino tudo que vem acontecendo. Ora, isso aqui não é nada mais que fruto de uma série de acontecimentos que estão loucos pra tornarem-se idéias. Pra variar pensei muito sobre formas, modos, comportamentos. Temas que talvez sejam correntes em outros textos postados aqui, como por exemplo, no “Nascimento da experiência”, “Velho e o moço” e alguns outros, pra não dizer todos. Isso me leva a crer que essa tão faminta vontade que citei na primeira linha não é tão estranha e nova, mas sim um rio que não para, sempre encontrados outros, que flui em mim sempre e está longe de secar.
Tem uma canção que diz: “(...)Como é difícil agir quando se percebe agindo(...)”. No primeiro momento que tive contado com esta música, não fez tanto sentido, porém, como seu sempre digo, devemos escutar um CD várias vezes até começar a entender o texto e por fim tirar algumas conclusões. Não quero especificar de quem é o CD ou de quem é a música, simplesmente por que não vem ao caso e também pelo fato de fazer questão de evitar textos cheios de citações extremamente chatas. Voltando na percepção da ação. Você já se percebeu agindo? Parece bem óbvio que todos irão dizer sim, assim como eu também me disse sim quando ouvi a música pela primeira vez. Mas será mesmo? Pensando mais e percebendo o texto da música comecei a me ater mais a questão e aprofundando. Conclui que é mesmo difícil agir quando se percebe agindo. Percebemos-nos agindo. Vamos ao banheiro e percebemos isso. Colocamos determinada roupa e percebemos isso. Graças a alguns sentidos básicos como visão e audição, podemos perceber nossas ações. Mas indo além, vamos chamar o ato de “perceber” que a música cita de “questionar”. Como é difícil agir quando nos questionamos sobre determinada ação. Entende?
Um exemplo. Alguns amigos depois de algum tempo de banda se juntam para gravar um CD. Independente do estilo ou qualquer coisa. Há um fato, eles vão gravar. Obviamente eles sabem que vão gravar. Mas eles percebem, eles têm sensibilidade suficiente que vão gravar um CD? Entende que existe um espaço enorme entre só gravar e perceber que está gravando? Vou tentar exemplificar pra de alguma maneira você visualizar. Uma banda ao gravar pode ser perguntar sobre o que eles vão escrever, pra quem eles vão escrever o que eles querem com essa gravação. Ou então eles podem só ir ao estúdio, pegar letras que algum colega de um conhecido que ele nem conhece porque fulano de tal indicou, e o cara que escreveu é vocalista de uma banda foda, então tem “selo de qualidade”. Viu a diferença de se perceber agindo ou simplesmente agir? É essa. Pra quem percebe/questiona existe uma possibilidade de saber o que se faz, que faz de um lugar, faz pra determinadas pessoas. Pra quem simplesmente vai é como o político que não sabe o que faz. Você pergunta pro político perdido: Como você se tornou uma pessoa pública responsável pela proteção e desenvolvimento do patrimônio de um país? Ele deve dizer: Não sei, sabe, meu pai era coronel do interior da Bahia, virou senador, eu entrei no ramo porque meu pai estava bem de vida, estava tudo encaminhado. Resumindo é o famoso “não sei, só sei que foi assim”. Falando numa linguagem “Zeca Pagagodeira” é o seguinte: “Vida leva eu”.
Muitas vezes estamos em determinados grupos/faculdade/igrejas/estilos-de-vida/dietas/lugares e mais uma pá de coisas e não nos percebemos. Só sabemos que estamos ali e isso basta. Como sempre optamos pelo mais cômodo, pela passividade e burrice. Já está tudo pronto. Eu devo me vestir assim, devo escutar isso, devo ler aquilo, devo fazer determinado curso na faculdade, devo ter um salário X. Estamos aceitando tudo de forma amorosa/cristã/branca/ocidental sem ao menos nos perguntar se é assim, sem nos questionar até que ponto aquilo é real e irá fazer algum sentido que você possa repousar sobre ele. Até mesmo alguns que se dizem contra culturais, esquerdas, radicais, hardcore, ant isso, pró aquilo se inserem em grupos e não se percebem agindo dentro desses grupos. Ora, só porque você se intitula qualquer coisa dessas você continua agindo, ainda é preciso saber e conhecer o meio que você está inserido, e com toda certeza do mundo ele não é perfeito e também tem mil defeitos assim como a igreja que você condena, aquela que sua mãe vai todo santo dia, ou então a igreja evangélica que faz um barulho danado bem do lado da sua casa.
As formas estão prontas pra você comprar. Pra comprar não basta ter milhões de reais, basta se portar de alguma forma e ter a estética bem aceita no grupo que você quer entrar. Eles terão as regras, horários e manuais. Se você estiver ciente disso e ainda assim tiver interesse em permanecer, ao menos deve se perceber agindo a todo o momento. Se perceber agindo é não levar tão a sério a cartilha do grupo/família/igreja/underground ou qualquer outra instituição falida. Quando você não se leva tão a sério, nem leva o grupo tão a sério, você pode perceber e começar a questionar tudo, no sentido de melhorar tudo aquilo que por algum motivo você acha que mereça ser melhorado, desde o banheiro que está com a descarga estragada até discutir com o pastor sobre Deus. Não perceber é ir pra Igreja e dizer amém e ficar balançando a cabecinha pra cima e pra baixo. Perceber é conhecer a fundo, igual fiel que lê a bíblia e estuda a história da mesma, e com isso ele adquire a liberdade pra questionar e até mesmo duvidar da existência de alguma coisa.
Isso mesmo, conhecimento é a liberdade pra você poder questionar. Assim como quando você aprende a contar e sabe que seu troco é 10, mas o cara te volta nove, você fala que está errado. Mesmo que o cara da padaria seja o dono do estabelecimento, esteja cercado de seguranças e até mesmo esteja armado, ele não pode fazer nada, simplesmente porque você sabe contar. Entende a profundidade do “saber contar”? Do mesmo modo irá acontecer em todas as instituições falidas que te convidam todos os dias, os líderes delas são os donos, bancam de sabe tudo, e estão loucos pra ter você como fiel, pra vestir a roupa que ele disse que é boa, a música que ele garantia ser ótima. Estão com a receita pra te fazer melhor, e até pra mudar o mundo. Enfim, ele quer que você seja uma reprodução dele somente para depois o líder poder dizer pra alguém: Olha, mais um fã destemido seguindo meus mandamentos. Mas se você tiver sensibilidade aliada com o conhecimento, e isso é a liberdade, como já disse, você pode ser igual o cara que sabe contar na hora do troco, simplesmente pelo fato de saber contar o líder/balconista/pastor/cacique-hardcore vai ter que prestar contas, afinal agora você já sabe que ele é só uma invenção pra alimentar interesses próprios.
Ainda bem que não existe mais regras de introdução, meio e fim que a tia da quarta série ensinou. Hoje os textos podem estar embaralhados, o importante é o leitor ter uma noção do que está sendo dito. E isso, com certeza, só acabou quando algum perdido teve a capacidade de perceber que não era preciso introdução no começo, desenvolvimento no meio e fim no final. Graças a ele, eu posso dar mais um exemplo, reforçando a idéia “central” do texto. E de quebra ainda justificar a não introdução. Mas isso é só vontade de escrever.
Escrito por Cidadão Padrão às 17h52
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