Falar da falta do que falar. Não que as circunstâncias não estão me dizendo muito, e sim ao contrário, é tanto que me perco. O silêncio exige um diálogo interno, destruidor por natureza. Se pra quem sabe ler um ponto é muito, pra quem quer falar e não sabe por onde começar ou o simples medo de ser perder no caminho já intimida, deve aprender por obrigação então o não dito. Logo não mais me incomoda o não dito. Evito o colorido e atraente, que no fundo só é um dito não dito, frustrado e arrogante. Incomoda-me muito, isso sim, o excesso do falar, e o constante demonstrar que sempre está preparado para responder e enquadrar uma ação qualquer ao seu redor. Como um campo receptor, apto a receber todos os sinais e devolver decodificado.
Nesse processo de recepção e em seguida decodificação, o receptor passa a ser autor. Ora, estou falando de um ser humano. Ele desenha, pincela, destrói, constrói e te entrega babado. Um sem dente fingiu mastigar e te entregou. Pra não depender de artistas da construção Xerox plástico, é preciso sim aprender a sentir o não dito, fazer o silêncio amigo, e não deve ser fácil. É um exercício de auto destruição constante, como havia dito acima.
Uma grande banda acaba de ter seu fim anunciado. Rodrigo, vocal da banda curitibana Colligere diz que o papel dele na banda sempre foi dizer algo, e então ele justifica a sua saída: Não tenho mais o que dizer. Alguns ficam perdidos com isso, dizendo pérolas como “ele não pode superar o que disse nas letras anteriores?”; “ele não lê muito, deve ter algo pra falar sim”. É engraçado a pressão pelo apoio, bengala para cômodos. Sim, chamo isso de apoio, as pessoas precisam do dito e óbvio pra continuar existindo? Necessitam da constante novidade, mesmo que copiada e colada em uma combinação diferente? Parece que sim. É sempre mais fácil falar, escutar, vomitar. Difícil mesmo, sentir e se colocar diante do infinito raio de possibilidades de dizer e não dizer, e perceber que nesse inacabado de entradas, nós temos a capacidade de captar tudo que está a nossa frente. Sem entrar, nós temos o Poder de dialogar com tudo. Estamos passando diante de todas essas entradas e muitas se abrem desesperadas, na falta do que dizer, não param de falar; enquanto outras estão trancadas, e o máximo que nossos sentidos podem é entender o não dito daquela que você fica curioso pra entrar mas não pode. Muitos param aqui, preferem entrar no fácil e no cômodo.
O não dito, o quase dito, silenciado, são sinônimos pro subterrâneo. O menos importante, o marginal, aquele que vive a margem das ações e que por algum motivo estava ali e sentiu. Muitos estudam buscando, mas nunca poderão sentir o que aquele à margem por acaso experimentou. Nós temos respostas pra todas experiências? Sim, se aprendermos a dar voz ao subterrâneo, se escutarmos o não dito. Temos mecanismos modernos que podem nos fornecer mil respostas, localizar culpados e motivos. Mas isso nos tem guinado para uma falta de sentir sem saída, deixando em segundo plano o silêncio e os acasos. Uma ciência profissional em construir acasos, o que é contraditório, uma vez que acaso é acaso e não pode ser fabricado.
O que quero falar é que não tenho falado, e estou em um SPA de aprendizado, vendo até que ponto ainda posso fazer do não dito meu aliado. Não é uma falta do que falar, acho que é, sobretudo uma opção por não falar.E acabo querendo dizer alguma coisa, não aceite o mastigado, normalmente quem quer pensar por você nem dentes tem para fazê-lo. Aceite meu silêncio como a mais sincera resposta, e não encare-o como vazio, mas sim como o mais sincero e justo que posso te oferecer.