Vou tentar.
Qualquer coisa que eu tente escrever vai me soar estranho. Por inúmeras razões, a vida se perdeu em um grande moinho. Todos os medos de que eu fugia acabaram me encontrando. Os medos de classe média, os medos burgueses, a educação do medo. Nós nascemos no escuro, nosso destino é incompleto. E quanto mais eu acredito estar no caminho certo, mais me parece patético. Porque é simplesmente óbvio perceber o quanto sou espectadora da minha própria vida e como tudo passa rapidamente a ponto de se tornar efêmero e leviano. Eu mesma me tornei efêmera e leviana, por mais que eu não deixe você perceber. Meus sentimentos se transformam absurdamente rápido, os vínculos se quebram, as ilusões me dominam inutilmente e loucamente. Faço de você um príncipe, faço de você um monstro em apenas alguns segundos. Os míseros e assustadores segundos que te transformam em uma criatura adorável e que te reduzem a lama. Só que depois tudo passa e os sentimentos, as sensações, os pensamentos, as frustrações voltam ao seu devido e óbvio lugar; voltam ao estágio inicial, voltam à angustiante dúvida de sempre, ao angustiante medo de sempre. Mas esse não é o último dia da minha vida, nem o último dia do tempo. Ainda existem muitos recursos. Nenhum vai resolver, eu sei. Também sei que existem tantas palavras comprimidas em mim, buscando saída, só esperando para explodir. Em vão, tentei me explicar com palavras pálidas, desbotadas, perdidas. São todas minhas; são feias, surdas, mudas, mas são tentativas.
Escrito por Cidadão Padrão às 21h29
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